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sábado, 19 de março de 2011

Mulher Maravilha #1

 

Mulher Maravilha #1 - A Queda 
Parte 1 - Sobrevivência

Por Daniel Násser



Um temporal desaba inclemente sobre a cidade dos anjos.  Neste instante o que prevalece no micro universo imperceptível ao olhar humano é o instinto de sobreviver. Ratos e baratas buscam abrigo, segurança e calor. As pessoas não são tão diferentes. Elas buscam as mesmas coisas em seu mundo. Só os desavisados e os mal intencionados caminham numa noite dessas, onde a chuva contra a pele machuca. Em tempos anteriores, quando os homens sentavam-se em círculos em torno de fogueiras no interior de cavernas, acreditava-se que tempos assim anunciavam uma guerra entre os deuses. Os trovões nada mais eram que o soar do grito de batalha e os raios suas espadas em conflito. E numa guerra os deuses também caem...

            Numa ruela deserta, em meio aos latões de lixo que faziam um intenso barulho ao receber a violenta chuva, encontrava-se um corpo abandonado.  Uma bela mulher de longos cabelos negros que formavam pequenas espirais, um rosto pálido, pequenas lacerações espalhadas por todo ele, ainda com o sangue estagnado nos lábios, e nas mãos. Incomuns braceletes prateados brilhavam sobre seus pulsos, marcados por lâminas de uma guerra de outro plano.  Seus olhos abrem-se lentamente. O mundo ao seu redor parece confuso. Semicerrou os olhos de novo, pois sua cabeça doía muito. Sua mão resvalou num objeto bem próximo de seu corpo, algo como uma corda. Segura entre suas mãos e ergue um laço dourado brilhante, algo realmente espantoso para olhos desacostumados ao mundo dos deuses. A cabeça dela ainda dói. Se pergunta finalmente:

- Quem sou eu? – a voz saiu num sussurro quase inaudível. 

            Ergue-se do chão com dificuldade, seu corpo queima como se tivesse caído de muito longe até este lugar. Seus trajes estão em farrapos, mas ainda podem ser identificados: um saiote de tiras coberto de estrelas, uma armadura sobre o peito para protegê-lo em formato de uma águia dourada, logo abaixo sob couro tingido de vermelho uma cota de malha feita de pequenos anéis de prata, quase invisíveis. Em sua cabeça uma tiara dourada lhe prende os cabelos tecidos em tranças. Apóia-se na parede um estante e vê, a seus pés, uma espada quebrada e um escudo com um enorme furo em sua carapaça.  Por reflexo olha para seu braço e vê uma lesão do mesmo formato que havia sido feita no escudo. 

- Quem sou eu?

            Balança a cabeça. Nada daquilo realmente importava naquele momento, pois a chuva que a açoitava era muito incômoda e precisa buscar abrigo. Sai cambaleando pela rua em busca de algum lugar aberto, mas não encontra nada. Pessoas observam das janelas cena tão estranha, mas nada fazem. A mulher permanece sem rumo, até que seu cansaço não permite mais e ela cai sobre os joelhos.  Nada, além do silêncio da madrugada e da chuva.

- Quem sou eu?

            Ao silêncio e a chuva começam a se juntar o som de passos e risos abafados. A mulher vira-se rápido e vê três homens a encarando.

- O que acha dela, Brianeu? – diz um deles se aproximando mais para observá-la.

- Me parece ser ela mesma, Giges... – interrompe o homem chamado Brianeu antes que ele possa falar.

- Cale-se, Coto! – grita Brianeu empurrando o irmão para o lado – Quem decide isso sou eu.
            
              Brianeu circunda a mulher caída e a examina atentamente.

- Parece ser ela mesma. – diz finalmente – Diana, a princesa de Themicysra. 

             Brianeu segura firme o cabelo de Diana e puxa com força sua cabeça para trás e agora a princesa podia ver sua expressão monstruosa, um olho no meio de sua testa com uma fenda ardendo como fogo.

- Só não entendo porquê uma guerreira tão combativa está se sujeitando as nossas humilhações. – diz ele – Parece não saber quem é...

- Deixe-me ver, irmão – diz Giges, se aproximando enfim e revelando seu terceiro braço ao agarrar no pescoço de mulher e segurá-la com os outros dois, que já estavam a mostra – Você sabe quem é?             

            Diana permanece em silêncio.

- Responda, amazona! – grita Giges, salivando sobre o rosto dela.

            Um fogo começa a crescer dentro da mulher ajoelhada, uma ira até este momento desconhecida por ela, algo que a faz agarrar na mão de Giges e esmagá-la enquanto o monstro grita.

- Tire suas mãos imundas de mim, monstro. – ao dizer isso Diana o arremessa contra um muro com força suficiente para que a parede desabe sobre seu corpo desacordado.

- Como ousa atacar divindades anteriores a você, amazona? – Brianeu avançou sobre Diana, que o esmurrou com força e o deixou inconsciente. 

            Virou-se e viu Coto tentando escapar, mas atirou-se em sua direção rápido e, por um instante, pareceu voar. Segurou-o com força e gritou:

- Quem são vocês? O que querem comigo?

- Largue-me, insolente. - berrou Coto, sem esconder seu pavor – Os deuses querem o que você trouxe do Olimpo de volta... Sua cabeça está a prêmio entre os seres sobrenaturais... Largue-me!

- Preciso saber mais...

            Sem que Diana notasse Brianeu ergue-se e dispara uma flecha que a atingiria mortalmente, mas, embora não saiba explicar como, seu ouvido apurado detecta o som da arma se aproximando, ela vira-se e usa Coto como escudo. A criatura se desfaz em sombras ao ser atingida.

- Vai me dizer o que quero saber... – Diana salta em direção a Brianeu e, neste instante tem a certeza: está voando.

- Diga-me tudo! - a mulher o agarra pelo pescoço e o ergue do chão.

            Brianeu ri alto, sua gargalhada ecoando pela rua vazia.

- O que é tão engraçado, monstro? – questiona Diana, fazendo o pescoço de Brianeu estalar um pouco. 

- Nada lhe direi... – a voz sai quase inaudível e rouca – mas já cumpri meu papel.

            Diana Instintivamente olha para o lugar onde derrubara Giges e o encontra vazio. 

- Ele se foi... – continua Brianeu – e agora os deuses saberão que você está viva. Até o fim da semana você se juntará a meu irmão e a mim, no reino dos mortos.

            Brianeu desfalece neste instante e se torna uma sombra nas mãos de Diana, sumindo.
            A amazona fica parada sob a chuva forte, sem nada entender. Sabe um pouco mais de si do que ao acordar, mas ainda não é suficiente. 

- Bravo, Diana de Themyscira. – surge uma voz as suas costas, fazendo-a se virar em guarda – Não esperava menos de você. Afinal foi criada na ilha das guerreiras. Filha de Hipólita. 

- Você me conhece? - Diana questiona confusa.

            A senhora sob o guarda chuva levanta o rosto em direção a amazona e seus olhos glaucos reluzem e trazem em si uma enorme confiança e compaixão. 

- Sim, Diana. – Ela responde – Peço que confie em mim e, por hora, contente-se em saber que você está sempre em meu pensamento. Não posso ficar muito tempo, mas a urgência do que tenho a lhe dizer é grande, por isso vim. É do monte Ótris que vem esse ataque a você, eles querem o laço da verdade, que você trouxe do Olimpo. Não o entregue. Nós, Olimpianos, caímos e só você pode nos devolver a glória... O mundo dos homens era mais seguro que deixar você a mercê deles... Cuide-se. Voltarei breve. Cuide do laço.

            Sem dar ouvidos as perguntas de Diana, a mulher entrega-lhe o guarda-chuva que trazia olha para o céu e suspira.

- Espere! – Diana grita – Quem é você?

            A senhora sorri.

- Isso você já devia saber... Atena jamais vai abandonar sua criança...

            Atena, agora revelada, transforma-se numa coruja e parte em meio à escuridão deixando Diana só.

            De uma janela não muito distante uma senhora observa a cena e não acredita. Tudo o que vira até agora era fantástico, mas isso... Julia Kapatelis viu muita coisa em sua vida, mas nada igual. Corre até o telefone e pensa em chamar a polícia, mas ao olhar de novo pela janela e ver a jovem de novo ajoelhada, as mãos cobrindo o rosto, chorando... Parecia tão perdida... Ela larga o telefone apanha um guarda-chuva e vai ao seu encontro.

            Julia para a certa distância. Se pergunta se é seguro aproximar-se mais. Ao vê-la, Diana fica um instante sem ação, mas logo se atira em seus braços, chorando. 

- Calma, criança... – diz Julia, afagando-lhe os cabelos – Tudo vai ficar bem... Calma...
- Quem sou eu? – pergunta Diana, entre soluços.

            Julia suspira um instante e sorri.

- Você é uma mulher- maravilha...

Continua.


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